Crônicas de um Re-Pa

Desde o início da era dos pontos corridos, lá no distante ano de 2003, Remo e Paysandu — as duas locomotivas do futebol nortista — estiveram juntos na Série B uma única vez. Foi no não menos distante ano de 2006, quando o mundo era outro, assim como o futebol.

Em 2006, o Brasil foi sacudido pela notícia dos ataques do PCC à cidade de São Paulo. Se hoje se reclama das mais de 100 mortes na megaoperação do Rio, lá atrás foram mais de 500 — fora o prejuízo material.

Faz tanto tempo que, naquele ano, Messi e Cristiano Ronaldo ainda estavam no início de carreira. Quem mandava no futebol era o Brasil, que via o último suspiro da geração dourada de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano e companhia. O favoritismo na Copa do Mundo, no entanto, caiu nas quartas de final, obrigado a engolir o tetra dos italianos.

Mas voltando à humilde realidade do torcedor paraense, vale lembrar que 2006 marcou a última vez em que a dupla Re-Pa disputou uma Série B. A grande ironia do destino é o provável mesmo desfecho daquele ano: o Paysandu rebaixado e o Remo seguindo na competição — embora o momento atual não apague a história: o Papão é bicampeão da Série B e maior detentor de títulos da Amazônia, enquanto o Remo ainda persegue o primeiro troféu da segundona, tendo apenas um título da Série C.

A diferença é que, desta vez, o negócio foi feio. Nunca, na história dos pontos corridos, Remo e Paysandu tiveram uma distância de pontos tão acentuada. Faltando poucas rodadas para o fim da competição, os dois times têm em média 30 pontos de diferença, com a mesma quantidade de jogos.

Para fins de comparação, Guto Ferreira tem seis vitórias no comando do Remo — uma a mais que todo o Paysandu.

E se 2006 foi o fim de um ciclo, 2025 parece o colapso de um modelo. O Paysandu mergulhou em uma temporada sem identidade, sem comando e, em muitos momentos, sem alma. A torcida fez a sua parte, lotou a Curuzu, empurrou até onde deu — mas não há pulmão que sustente um time que esqueceu o que é competir.

O modelo em questão, na visão de muitos torcedores, tem nome e sobrenome: Novos Rumos. O grupo político que assumiu o comando do clube em 2012, com a eleição de Vandick Lima e, desde então, segue colocando seus nomes, ainda que na prática o grupo tenha sido extinto. Depois de Vandick vieram Alberto Maia, Sérgio Serra, Tony Couceiro, Ricardo Gluck Paul, Maurício Ettinger e, por fim, Roger Aguilera,

Todos eles têm em comum a mesma origem. Em mais de 10 anos sob o comando dessa turma, o que Paysandu ganhou de mais relevante foram os cinco títulos da Copa Verde, enquanto algumas melhorias de infraestrutura foram conquistadas.

Enquanto o rival azulino encontrou um projeto ousado, liderado pelo polêmico executivo Marcos Braz , o Papão se perdeu em promessas. A cada rodada, uma nova esperança; a cada derrota, uma velha justificativa. O resultado é um rebaixamento que não surpreende, apenas confirma o que já se via nos gramados: um clube desorganizado, fragmentado e à deriva.

O torcedor, cansado de discursos e trocas de comando, olha para 2026 com a mesma pergunta de sempre: “vai mudar mesmo?”. Por enquanto, o que há é uma lista curta de jogadores com contrato, uma crise política em ebulição e a lembrança incômoda de que, há quase vinte anos, o roteiro já era o mesmo.

Assim como 2006, o ano de 2025 ficará marcado na memória do torcedor paraense. Para uns, no entanto, a lembrança será boa. Já para outros, talvez seja melhor esquecer.

Luiz Guillherme Ramos

Autor: Luiz Guillherme Ramos

Jornalista - instagram.com/luiz.grj

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